Jardins de Coral


São seis horas da tarde. Acaba oficialmente o dia e impiedosamente se faz ouvir no bairro inteiro a Ave-Maria tradicional desta hora. Aquela Ave-Maria que jamais será outra enquanto concebermos assim esse momento do dia. Gosto de todas as Ave-Marias mas essa me agonia. Mexe lá dentro comigo, me dá um pouco de medo. Acho que é porque quando eu tinha 12 anos estava passando férias no interior. No nordeste agrário antigo no qual eu vivi, sempre que morria alguém nas cidades pequenas, tocava-se uma porção de vezes o sino (faz blem-blão mesmo, me acreditem!!) e o dia topdo, pelo microfone da praça, a Ave-Maria das seis horas. Pois bem. Nessas férias um primo meu se matou. Nós, os pequenos éramos mantidos de fóra o que era muito pior. Ouvir comentários esparsos, escutados por acaso ou a medo é muito pior do que saber do que aconteceu. Eu ouvia: "ele se matou com dois tiros. Queria morrer mesmo.". "Dizem que deixou um bilhete que ninguém consegue ler", "ainda viveu seis horas", e eu pendurada na janela pra não ouvir mais aquelas coisas, mas minha cabecinha não parava, meu coração também não e aquela Ave-Maria tocando e aquele sino que ali sim, me parecia pesado e lento. O toque dos mortos. Há muito tempo no nordeste do Brasil.

Escrito por Simone/Elf/Rosa do Texas às 17h12
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